CARTA DA 39º ROMARIA DA TERRA E DAS ÁGUAS



Da 39ª Romaria da Terra e das Águas ao Bom Jesus da Lapa, realizada nos dias 01, 02 e 03 de julho de 2016, dirigimo-nos às comunidades, organizações e movimentos, às nossas Igrejas e a toda a sociedade. Cerca de 4.000 pessoas, vindas de todos os cantos da Bahia, Minas Gerais, Goiás, Pernambuco, Rio de Janeiro e Distrito Federal, estivemos na igreja da Lapa, “feita de pedra e luz”, para rezar, trocar experiências, saberes e propostas e comprometer-nos com “Cuidar da Casa Comum”, uma “Conversão Ecológica” necessária e urgente. Convencemo-nos de que esta é a tarefa de nossas vidas,  inadiável,  em vista do devastação socioambiental crescente. Um ruidoso clamor sobe da Terra e da Água e de todas as formas de vida ameaçadas e atinge e apela a todos, em especial a nós seguidoras e seguidores do Bom Jesus, com ele construtoras e construtores do Reino de Misericórdia, Justiça e Paz.



Entregues ao jogo inescrupuloso da política, nossa vida e destino comuns estão à mercê da corrupção em todos os níveis e setores da vida pública, como escancaram os seguidos escândalos que envolvem agentes públicos e privados e levam perigosamente a descrer da democracia. A repercussão desta crise generalizada se faz sentir no cotidiano das classes trabalhadores e da população mais pobre, os que sempre “pagam o pato” e o pacto das elites.  Estarrecida e praticamente paralisada a sociedade brasileira está a precisar de um “choque de realidade” e de esperança para tomar o seu presente e futuro nas próprias mãos. Hora da gente de fé consciente e destemida, criativa e arrojada, como o Bom Jesus. Foi isto o que consolidaram os debates e celebrações da nossa romaria.
Na certeza da fé, à luz da Palavra de Deus, com o testemunho dos nossos Mártires e Inspiradores e Inspiradoras, vivenciando a alegria da fraternidade em todos os momentos, encaramos este quadro desafiador. Nos cinco plenarinhos, vimos, trocamos experiências, assumimos e comunicamos:
Terra e Território – Está acontecendo no País uma ofensiva sobre os bens da natureza e os territórios camponeses, dos povos e comunidades tradicionais, conduzida pelas empresas do agro-hidronegócio, da mineração e da energia, com apoio direto do Executivo, do Legislativo e do Judiciário e da mídia empresarial. O resultado é a retirada de direitos sociais, uma crise ambiental sem precedentes e uma crise política representada em parte pelo Golpe de Estado em curso, que aponta para uma profunda reforma política. Diante deste quadro, é necessário retomar as lutas e resistências através do trabalho de base, da produção de alimentos saudáveis, da formação e conscientização da sociedade, para enfrentar inclusive os processos de criminalização das lutas, lideranças e movimentos sociais.
Fé e Política – Indignados e indignadas com a política partidária, queremos viver a fé no Bom Jesus e no seu/nosso Projeto de Vida, fé que é coragem diante dos desafios, sendo luz, sal e fermento, que incomodam e desacomodam. Dedicaremos apenas 5% de nós à política partidária para elegermos os melhores candidatos e dedicaremos 95% do nosso tempo na Política entendida como busca pelo comum, participando de lutas concretas por direitos sociais – terra, moradia, territórios, meio ambiente – ao lado dos injustiçados e injustiçadas.
Rio São Francisco – Com outras quatro bacias hidrográficas da Bahia representadas (Paraguaçu, Pardo, de Contas e Jiquiriçá), o eixo das discussões foi o saneamento, urgente necessidade, direito e dever do Estado, para salvar nossas águas e toda a vida. A lei 11.445/2007 define o saneamento como abastecimento de água, manejo de águas pluviais, coleta e tratamento de esgoto, manejo de resíduos sólidos e controle de vetores de doenças (como a dengue, zika e chikungunya). O compromisso assumido vai cobrar a concretização dos Planos Municipais de Saneamento até 2017, último prazo legal.
Crianças – Com o tema “A vida do planeta depende das crianças e dos adultos”, elas identificaram as coisas boas que existem em nossa casa comum e nos fazem felizes, as que não podem mais existir porque causam doenças e tristezas e aquelas que as crianças podem fazer para salvar nossa casa comum.
Juventude – As Pastorais da Juventude – PJ e PJMP – discutiram o tema “Juventude na casa comum: o cuidado com a vida, a terra e as águas”. O compromisso firmado foi o da participação e engajamento dos jovens nos espaços políticos e sociais para transformá-los a partir de dentro, descontaminando-os da Cultura da Morte em todas as suas formas, para um Bem Viver coletivo e sustentável de fato.
Celebramos a misericórdia de Deus no rito penitencial comunitário e nas confissões. Revivemos a Via Sacra de Jesus, do Povo e da Casa Comum, caminhando da Gruta do Bom Jesus até à beira do Rio São Francisco, mais degradado do que nunca, clamando para ser revitalizado junto com todas as bacias que o alimentam. Na Missa da Ressurreição de Jesus e nossa, nos sentimos fortalecidos na fé que é coragem para as lutas necessárias e urgentes. Na Grande Plenária, sob a inspiração do mártir Padre Ezequiel Ramin, assassinado aos 32 anos em 25/07/1985, colocamos em comum as reflexões e os compromissos assumidos nos plenarinhos. Trocamos o símbolo das mudas de plantas nativas. E fomos enviados em missão para seguirmos firmes na busca incansável pela terra e pelos territórios, em defesa das águas, da vida dos nossos jovens e crianças, com disposição renovada para colocar em prática o cuidado com a Casa Comum, numa Conversão Ecológica pessoal e comunitária e de todas as estruturas privatistas e abusivas dos bens comuns do planeta.
Sob as bênçãos do Bom Jesus e de N. Sra. da Soledade sejamos todos e todas, também vocês que leem esta Carta, luz e força divina revolucionária de tudo e todos. Gratidão a quem participou e a quem organizou a 39ª Romaria e até a grande 40ª Romaria em 2017, com as graças do Bom Jesus!

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