III ENCONTRO NACIONAL DE AGROECOLOGIA PAUTA A IMPORTÂNCIA DA PRODUÇÃO AGROECOLÓGICA PARA A SOCIEDADE

Foto: Fábio Caffé

Mais de 2100 agricultores e agricultoras de todo o país participaram do III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) na Univasf Campus Juazeiro. Além dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, o evento contou com a participação de diversos movimentos sociais e pastorais, a exemplo do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), PJR (Pastoral da Juventude Rural), MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), Levante Popular da Juventude, SASOP (Serviço de Asessoria a Organizações Populares Rurais), Via Campesina e vários outros.


O evento é a culminância de uma jornada de 14 caravanas que espalhadas pelo Brasil registraram os conflitos gerados pelo agronegócio e grandes projetos desenvolvimentistas, duas das grandes causas de expulsão dos povos do seu território, além da troca de experiências para a melhoria das práticas de cultivo e um mapeamento dos grupos de agroecologia em todo o país.



O encontro, realizado pelo ANA (Articulação Nacional de Agroecologia) e diversas entidades e órgãos do governo pautou a importância das mulheres e da juventude , além de discutir políticas públicas para a permanência destes no campo. Também foram abordados diversos temas relacionados a produção de alimentos sem o uso de sementes geneticamente modificadas, agrotóxicos e fertilizantes químicos.


Foto: Daniel Leon

A Plenária da Juventude abriu o encontro e teve como principal tema a importância do jovem no campo e as políticas públicas direcionadas a juventude rural, além de pensar numa articulação nacional voltada aos jovens que produzem a partir do método agroecológico, para descentralizar e facilitar a difusão e discussão de temas voltados á agricultura familiar e sem o uso de agrotóxicos.


Foto: Fábio Caffé

No dia 17, a Plenária de Mulheres teve como tema o grito “Sem feminismo não há agroecologia. ” Durante a mobilização para o Encontro, as Caravanas vindas dos mais diversos lugares do país tiveram a tarefa de garantir que mais de 50% das inscrições seriam de mulheres.


Beth Cardoso, da Articulação nacional de Agroecologia (ANA) ressalta a associação da ANA com diversas outras entidades para garantir a participação feminina no evento: “Quem tem uma ação mais direta dentro das comunidades são as entidades e movimentos que fazem parte da Articulação. Dentro da ANA temos um grupo de trabalho, o “Mulheres e agroecologia em rede”, que realiza formação e ações nas cinco regiões do país.”



Nos vários discursos era recorrente a queixa das mulheres na dificuldade de acesso a terras para o cultivo, água de qualidade, mecanismos de crédito e financiamento para projetos liderados por elas, o direito a titularidade das terras, além dos casos de violência contra a mulher e casos de opressão no campo muitas vezes ocasionados pelos companheiros e familiares, como a contaminação proposital de quintais agroecológicos, destruição das áreas onde são cultivadas as plantas para medicina natural e ornamentação e outras formas de desqualificar e invisibilizar o trabalho das camponesas.



Foto: Gabriel Amorim

No domingo, foram ministradas oficinas, cujos temas eram voltados desde o cultivo agroecológico a produção de peças personalizadas, além da Feira de Sabores e Saberes, com produtos provenientes da agricultura familiar como produtos beneficiados, comidas regionais típicas e artigos de artesanato. Durante o evento também acontecia a troca de sementes crioulas, ou seja, que nunca passaram pelo processo de transgenia.


Foto: Fábio Caffé

Já a segunda-feira (19) foi voltada a luta. Durante a manhã três atos simultâneos ocorreram nas cidades de Petrolina e Juazeiro. A ocupação do escritório de apoio da Embrapa por cerca de 300 trabalhadoras camponesas encampava a luta pelo fim da associação com projetos voltados ao agronegócio e maiores investimento na pesquisa agroecológica. Em um ato simbólico foi fundada a “Embrapa Agroecologia”, a leitura e entrega da carta aberta com as pautas das mulheres do campo ao chefe-geral da Embrapa em Petrolina, Pedro Grama, que disse que a empresa vem tentando trabalhar com políticas voltadas a agroecologia e agricultura familiar.

Foto: Daniel Leon

Também na vizinha cidade, cerca de 100 manifestantes realizaram um ato de repúdio contra a Monsanto, empresa transnacional que trabalha com sementes geneticamente modificadas. Devido a seu projeto voltado ao agronegócio, a Monsanto é local recorrente de manifestações em defesa da vida e contra a transgenia. No ato desta segunda foram colocadas cruzes representado mortes causadas pelo uso dos produtos tóxicos fabricados pela empresa, além de uma faixa com os dizeres “Fora Monsanto”.

Foto: Francisco Valdean

Em Juazeiro, cerca de 50 pessoas realizaram uma ação no Mercado do Produtor visando alertar a população sobre o uso de mosquitos Aedes Aegypti geneticamente modificados vendidos pela empresa Moscamed, em parceria com a Oxytec, que tem a patente da pesquisa com o pretexto de eliminar os mosquitos, causando a diminuição dos casos de dengue. Contudo, o método não é totalmente seguro e pode ocasionar a mutação do vírus, tornando todas as outras medidas preventivas insuficientes.



Foto: Regina Lima

Posteriormente, todos os manifestantes encontraram-se e interditaram a Ponte Presidente Dutra por cerca de 30 minutos, mesmo com pressão por parte dos condutores e da própria Polícia Rodoviária Federal. Nesse momento, foram levantadas as pautas contra o agronegócio, uso de transgênicos, agrotóxicos e fertilizantes químicos e sugerindo uma mudança no modo de fazer agricultura no Vale do São Francisco a partir da convivência com o semiárido e práticas provenientes da agroecologia.


Durante a tarde, a plenária final contou com a presença do Ministro do Desenvolvimento Agrário, Gilberto Carvalho, que ouviu uma carta e depoimentos com diversas demandas, principalmente no que tange á ocupação dos territórios de agricultores e áreas de assentamento por parte de empresas estrangeiras e mortes causadas pelo conflito de terras, além da negligência em relação a políticas públicas voltadas aos jovens, mulheres e pela desburocratização dos programas sociais voltados a população rural. Posteriormente, o ministro afirmou que “Sem realizar uma reforma política, as propostas contidas nesta carta não se tornarão realidade. Enquanto houver no Congresso uma bancada que defenda o interesse dos grandes latifundiários, não conseguiremos avanças como precisamos. É preciso estabelecer mecanismos de participação social efetivos. ” Todas as demandas contidas na carta foram encaminhadas ao Gabinete da Presidência e serão discutidos nos próximos dias.


O III Encontro Nacional de Agroecologia foi um avanço para a construção de um modelo diferente de agricultura, onde não há uma relação integrada com a terra e todos os outros recursos naturais necessários a produção. A agroecologia é o caminho para garantir a soberania alimentar e alimentos saudáveis para o campo e cidade.

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