"ESTOU PIOR QUE NO DIA DO ASSASSINATO" DIZ IRMÃ DE EXTRATIVISTA APÓS ABSOLVIÇÃO

José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, mortos em Nova Ipixuna (PA), em 2011

Após a absolvição do pecuarista José Rodrigues Moreira, que era acusado de ser o mandante do assassinato do casal de extrativistas Maria do Espírito Santo da Silva e José Claudio Ribeiro, a irmã de Maria, a professora Laísa Santos Sampaio, 47, disse que se sente pior hoje do que no dia das mortes.

"No momento eu estou me sentindo pior que no dia do assassinato. No dia da morte eu não sabia quem era [o criminoso] e confiava na Justiça", disse ao UOL, por telefone.

Após dois dias de julgamento, o Tribunal do Júri de Marabá (685 km de Belém) condenou duas pessoas pelo assassinato do casal, em maio de 2011, em Nova Ipixuna (582 km de Belém). Lindonjonson Silva Rocha e Alberto Lopes do Nascimento, apontados como autores materiais do crime, foram condenados a 42 anos e oitos meses e 45 anos de prisão, respectivamente.

O pecuarista, no entanto, foi absolvido pelos jurados por falta de  provas. A absolvição causou revolta em cerca de 200 pessoas que  acompanhavam o julgamento. Ao final, elas atiraram pedras contra o prédio do fórum, quebrando vidraças. O Batalhão de Choque da PM (Polícia Militar) foi chamado e controlou a situação. Não houve feridos.

"Agora foi aberta a porta para que quem mata continue livre. Minha vida mudou radicalmente. Perdi a confiança. Como vou voltar pra minha vida?"
Laísa, que mora no assentamento alvo da disputa entre agricultores e o pecuarista, afirma que está com medo. "Eu sinto medo. Todas as circunstâncias levaram a ele. Minha irmã e meu cunhado morreram, e agora o cara volta para a sociedade", disse.

"Esse é o nosso país. Essa é a sangrenta região sul e sudeste do Pará, onde os defensores da terra pagam com a vida. Essa é a chamada Justiça do nosso país", disse. "Só fica atrás das grades o pobre, que tem menos condições. A história sempre se repete."

A decisão do Tribunal do Júri de Marabá não satisfez nenhum dos dois lados, que anunciaram, ainda no plenário, que vão recorrer da sentença.
Segundo a promotora Ana Maria Magalhães, o MPE-PA (Ministério Público Estadual do Pará) vai recorrer da absolvição o pecuarista José Rodrigues.

O advogado do réu Alberto, Edivaldo Santis, que recebeu a maior pena (de 45 anos), disse que vai recorrer da condenação. Já o advogado de José Rodrigues e de Lindonjonson, Wandergleisson Fernandes, disse que "foi feita justiça em relação a José Rodrigues". "Mas vamos recorrer da decisão de condenar o Lindonjonson, que também é inocente."

O CRIME

O casal José Claudio e Maria do Espírito Santo foi morto na zona rural do município de Nova Ipixuna, quando passava de moto por uma ponte, no assentamento agroextratitivista Praia Alta-Piranheira.

Eles foram alvejados a tiros após uma emboscada. Antes de ser assassinado, José Cláudio teve parte da orelha direita arrancada "como prêmio pela execução do delito", segundo o MPE-PA (Ministério Público Estadual do Pará).

O caso teve repercussão mundial, e instituições nacionais e internacionais de direitos humanos acompanharam o julgamento. Anistia Internacional, a Fundação RLA (Right Livelihood Award, na sigla em inglês) --que promove o Prêmio Nobel Alternativo-- e o Movimento Humanos Direitos enviaram representantes. O ouvidor agrário nacional, Gercino José da Silva Filho, também esteve em Marabá.

Segundo a denúncia do MPE-PA, "José Rodrigues planejou, organizou e financiou o duplo homicídio", objetivando, com as mortes, "afastar qualquer impedimento para adquirir a posse da terra".

Os lotes alvo de disputa foram adquiridos por José Rodrigues no assentamento em 2010. No local, moravam três agricultores, que eram defendidos pelo casal extrativista. José Claudio e Maria denunciavam a ilegalidade na operação de compra das terras na região e afirmavam que Rodrigues não tinha perfil para reforma agrária e não seguia conceitos básicos para preservação da natureza.

Em depoimentos, José Rodrigues negou a ilegalidade na aquisição do lote disse que possuía autorização do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) para ficar nas terras.

Rodrigues também negou que existisse um conflito com os extrativistas, mas confirmou a existência de três agricultores nos dois lotes de terra. Ele disse ainda que, para ficar com os lotes, pagou R$ 100 mil a duas pessoas --que não foram identificadas por ele.

Fonte: www.uol.com.br

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